Mensagem do Provedor
Inauguração e bênção do ERPI NSM 14-05-2026

Vossa   Emª D.RuiValério, Exmº sr Pres. CMM. Exmª srª Presidente da Ass.Municipal, Exmª Assemb e Juntas de Freguesias, Irmandades de Mafra Venda do Pinheiro, Torres Vedras, Sobral de Monte Agraço, Amadora, União das Misericórdias P.  Muito obrigado pela vossa presença.

Agradeço, particularmente, aos dirigentes do Inst. da Segurança Social que compreendendo e abraçando a nossa missão, acolheram as cinco candidaturas propostas e as viabilizaram, gerindo superiormente o Plano de Recuperação e Resiliência.  Aqui incluo, também, esta magnífica equipa dos Corpos Gerentes desta Casa: Luís, Abílio, Carlos, Gonçalos, Pedros, Jorge, Teresa, Ana Margarida e Júlio, e às Instituições bancárias aderentes à missão.

…mas o meu especial agradecimento, a todos os colaboradores desta Santa Casa que me aturaram e apoiaram com a sua presença e força, com o seu entusiasmo e sobretudo com o seu sorriso. Vivemos juntos, dois anos, um sonho que nos parecia impossível, interrompido às vezes, com o som e os horrores de uma guerra próxima, num mundo tresloucado a girar em velocidade vertiginosa e noutro sentido (?)  Mas esta obra nasceu para viver, para ficar e recordar:

Há alguns anos, o nosso capelão Pe. Armindo Garcia arregimentou um grupo de paroquianos, que mal se conheciam, e entregou-lhes amissão de protegerem e se possível, reforçarem a Misericórdia da Ericeira na sua acção histórica  de +3 séculos. Com total desconhecimento desta realidade, sem qualquer distinção académica apenas com a mediocridade de uma vida já longa, aceitei o encargo, confesso com uma estranha coragem e força que, a esta idade dificilmente corresponderia;  mas cá dentro ressoava-me o épico poema de Fernando Pessoa, dedicado ao Conde D. Henrique (pai do nosso 1º rei) : “à espada em tuas mãos achada o teu olhar desce. Que farei com esta espada? Ergueste-a e fez-se!
Foi-me consignado o canto mais recôndito da casa: formado por duas paredes onde a luz do sol nunca se reflectia, uma mesa, uma cadeira um tanto desequilibrada e um pequeno armário cheio de recordações escritas, algumas num cursivo imperceptível. Para dignificar aqueles 3 metros quadrados pedi que afixassem duas gravuras antigas que encontrara, perdidas a, um canto: um Sagrado Coração e uma Nossa Senhora com um menino Jesus ao colo.

Todos os dias o meu secretário Carlos, quando chegava, nivelava a gravura, sentava-se debaixo e, assim, trabalhávamos. Os primeiros meses passaram mas no regresso de uma inesperada visita a um bloco operatório, constatei que a minha “espada” jazia, enferrujada e  vergada, sob o peso de tanto papel, tanto contrato, tanto coisa e que o meu braço já não tinha a mesma força. Muitas manhãs dei por mim (triste e pensativo) a contemplar os quadros da parede como que a pedir a ajuda,  que nunca pedira, e a sentir tanto a falta do secretário que então partira.

A pouco e pouco, fui-me habituando aquela contemplação, verificando com tristeza, que Nossa Senhora nunca olhava para mim mas sempre para o Seu menino ordenando-me a fazer tudo o que Ele me mandava! Comecei a notar, sempre que surgia alguma situação mais complicada, ao levantar os meus olhos apareciam soluções, oportunidades , convicções, coragem para decidir… e tudo, mas tudo, com uma serenidade e uma eficácia surpreendentes.  Recordo a questão  judicial em que esta Santa Casa se enredara, havia mais de trinta anos e que em poucos dias se resolveu a contento de todos. Aquele olhar tornava-se, de facto, a minha espada e aprendi a Pedir. A pedir sempre! E cada vez que pedia, um Alexandre, um Luís um Guilherme  uma Olga, outra Antónia uma Carla ou a Sónia,  uma Tânia, um Júlio,  uma Cremilde, uma Mafalda ou até uma Mónica…enfim, de todos recebia uma nova ideia, uma sugestão ou mesmo a solução. Quanto mais a obra crescia mais pedia!  E até lá de longe, surpreendentemente, vinha ajuda ou o auxílio de uma Sofia ou de uma Fátima…de uma Soraia de uma Helena ou da Vera, da Luísinha ou da Maria…ou de uma Rita!

Formava-me, licenciava-me, tornara-me mestre e doutorado no Pedir! E tudo me parecia fácil, demasiadamente, fácil: -bastava Pedir…  

Certo dia, em descanso, decidi visitar um velho Convento desocupado dos velhos monges e agora entregue a uma pequena congregação de religiosas, eremitas em clausura, contemplativas de S. José e Nossa Senhora. O Inverno chegaria em breve,anunciado já por um frio intenso e promessas de forte temporal.  Chegados à escura e fria igreja (outrora ricamente ornamentada, agora necessitando de restauro urgente) fui surpreendido por um olhar curioso que espreitava entre as pesadas portas…era uma das irmãs religiosas que esperava ali, a chegada de uma doação prometida. Pouco ou nada tinham nas suas celas e o que iria receber pouco mais seria. Sem nos conhecermos,sem saber de onde vínhamos ou para onde iríamos , numa mistura de váriaslínguas, pediu-me ajuda!  Estariam a chegar mais religiosas ao convento e nada tinham para as instalar.

Pedir a quem passava o dia a pedir?!!! Faltava ali qualquer coisa…Regressado ao meu canto, consultei a minha imagem: -Faz o que Ele te manda!

Contei aos meus pares perplexos o que tinha acontecido eperante o meu espanto, manifestaram o seu incondicional apoio e ajustámos uma estratégia: - chamámos um transporte excepcional - o maior  de todos, enchemo-lo com o que tínhamos pedido e no dia agendado lá foram ( … ) Não acompanhei a operação mas sei que encheram o convento e que as sobras iriam para um outro  onde, também, tudo fazia falta .Despediram-se deixando um pequeno ramo de flores aos pés de Nossa Senhora da Cartuxa, e regressaram.

Agora sim! Tudo estava certo, e fazia sentido: Pedir, pedirtudo para tudo dar! Pedir com uma mão e doar tudo com a outra.

Pedir um projecto, pedir um financiamento, pedir licenças, pedir autorizações, pedir inspecções, pedir fiscalizações, pedir o protocolo, pedir o adiamento, pedir um pagamento, PEDIR para DAR o lar a quem precisar, levar a  água a quem tiver sede, dar o alimento necessário a quem tiver fome,  acolher, acompanhar e ensinar os que não sabem,  e proteger todos os que precisarem,  eis a nossa obrigação e o caminho para a paz no Mundo. Tudo DAR!… se necessário a própria Vida.

Agora, chegado  ao fimda minha missão, recordo o velho salmo bíblico tornado hino dos Cavaleiros Templários: Non nobis domine:  Não, nada  para nós Senhor, tudo pela glória do Vosso nome, e do fundo do coração, volto a pedir-Vos:  Minha Senhora e minha mãe, Nossa Senhora da Misericórdia!: -  Rogai por nós,todos, agora e na hora da nossa morte.    Amen!

João Pedro da Silva Henriques Gil - provedor






Ericeira, 28 de Dezembro de 2024 


Senhora da Misericórdia, Avé Maria!

Hoje celebra esta Irmandade 346 anos de Vida! Dezembro de 1678! A Terra de Santa Maria, agoniza nos escombros da guerra que nos traz devolta, finalmente, a Vossa coroa! Era o Tempo da chuva, Tempo de frio e de vento, do mar impossível! Do mouro que não larga a nossa praia e nos rapta os filhos!  Fome, pobreza, doença e morte,mas Tempo de alguém que se lembra de dar o pão que é pedido, a água que é vida,o agasalho que aquece a alma, a moeda que se estende na mão de quem precisa, e um colo para “apertar” os pequeninos…Algum tempo depois, é toda a Terra que se revolve nas suas entranhas, as pobres casas que se esboroam e o fogo consome, e ainda outras que o mar engole… A seguir invasões estrangeiras,guerras civis que separam a família, pandemias de má memória que calam este sino cansado de anunciar mais mortes, 2 guerras mundiais…e a que para aí espreita!

Nossa Senhora! Por Vós e sempre Convosco, esta Santa Casa tudo sofreu,  voltou a sofrer e sofrerá ainda mais -até à nossa morte, pelo Vosso Amor!

Senhora da Misericórdia! Mais de 100 provedorese quase 1000 administradores subscreveram este compromisso. Deixai que recorde apenas o nome dos que ouvindo a Vossa voz, se me juntaram (mais recentemente)  e que sob o Vosso manto,hoje e connosco  também celebram este dia:

Pe. Armindo Garcia (nosso Capelão), Manuel Paiva, José Luís Viana, Ná Mira Delgado, António Caiado, Abel Machado, António Souto Maior, Francisco Adrião e o Carlos… a quem peço que continuem, junto da Nossa Senhora, a pedir-lhe  a ajuda, a compreensão e a estima do povo da Vila Ericeira e nos dê força para continuarmos, juntos, o nosso caminho e a nossa obra.
E a Vós, Nossa Senhora da Misericórdia da Vila da Ericeira humildemente vos peço: (como alguém um dia vos cantou)- Na agonia, quando chegar , seja a rezar Avé Maria.



Nesta relação permanente com a dor, com a fome, com a indigência e a tristeza de já nada ter, nesta constatação da injustiça, da incerteza, da solidão dum corpo que já pouco vive, num mundo que já não é nosso, no outro que a vista já quase não vê e o coração não sente, no horror da deficiência, da dependência,  na certeza da morte que não tarda, está sempre presente, discreta, silenciosa, aberta e acolhedora a mão da nossa Mãe! Assim é e sempre foi. Assim será se a quisermos segurar e seguir neste caminho tão difícil. Hoje, neste jubileu anunciado como nos três séculos já vividos, esta Santa Casa olha a sua Mãe e Lhe pede do fundo do coração  a graça da Sua Misericórdia.Nas Vossas mãos a vida que me Quisestes preservar ainda há tão pouco tempo…  
Nas Vossas mãos, este sonho impossível ou tão longe de alcançar… o despertar sobressaltado em tantas noites e madrugadas sob o peso das dúvidas, receios… e dos incomensuráveis problemas que rolavam sem solução!
Nas Vossas mãos
, o suave encanto da intercessão de Vossa Mãe, Nossa Senhora, a quem sempre pedimos que nos desse a Luz, que nos ensinasse o caminho certo, nos guiasse nesta aventura e nos desse coragem para A seguirmos,

Meu Senhor e meu Deus
Também nas Vossas mãos, o aparecimento a nosso lado de uma equipa prodigiosa de amizade de saber e arte, o repentino apoio de tudo e de tantos, e a inquebrantável determinação na concretização desta obra!

Meu Senhor e meu Deus,  
Hoje e aqui - assumo e confirmo, o juramentoque o nosso instituidor Francisco Lopes Franco, professo Cavaleiro da VossaOrdem, aqui vos prestou em 1678:
Nada,mesmo nada, por nós ou para nós, Senhor, mas tudo, absolutamente tudo fizemos,pela glória do Vosso nome.  
Amen    


                   
O Provedor
João Pedro da Silva Henriques Gil